sábado, 18 de dezembro de 2010

O COMBOIO


Há dias em que a estupidez me absorve. A desmotivação persiste em não dar força à força que preciso. Precisava dela. Foi neste cenário, estranho talvez, que embarquei no Alfa Pendular da CP. Apresentar o DVD do PEO nas FNAC´s Santa Catarina e NorteShopping eram destinos finais. O carro ficou em Lisboa, graças a Deus ou ao bom senso. Talvez graças ao segundo. Andar de comboio, olhar pela janela, ver o mundo a passar, liberta-me. À minha frente, um casal de namorados libertava-se também. Ao lado, um viajante recebe várias chamadas. O viajante é, vários telefonemas depois, um empresário de Lisboa que vai ao Porto para tratar de dois contratos com uns espanhóis. Há uma espécie de partilha na viagem. As conversas ao telemóvel são a base da partilha. Os namorados, à minha frente, descobriram que eu iria apresentar um filme à FNAC e descobriram o meu nome quando o pronunciei ao revisor. O lugar 31 da Carruagem 6 pertencia a Jorge Pelicano. Confere. Não tivemos – namorados e a minha pessoa – qualquer diálogo, apenas fomos escutando a conversa uns dos outros ao telemóvel, fomos lendo os jornais dos outros. O empresário recebe mais um telefonema. Partilhas. 16h24, chegada a Campanha. A estória centra-se agora exclusivamente no casal, na rapariga, em particular. Diz-me: “Gostei muito do teu filme, boa sorte para logo à noite nas FNAC´s” E foi-se embora. A única reacção que tive foi....”muito obrigado”. Talvez ainda imerso de alguma estupidez que me invade não consegui dizer mais nada. E fiquei, Parado, pelo que Escutei e Olhei para a partida dela para junto da sua cara-metade. Reflecti. A desmotivação amainou. Se tivesse vindo de carro não podia partilhar este momento. Foi por isso que fiz o Pare, Escute, Olhe. Foi pelas 30 pessoas que foram ver à FNAC de Santa Catarina, foi pelas 40 pessoas no NorteShopping. Foi pelo debate, pela discussão, pelas novas ideias, foi pela promoção do livro do Laiginhas e do Leonel. Foi pelas dedicatórias que fiz às pessoas que queria comprar o DVD e não tinham. Foi pela Rosa que estava a apresentar o PEO no Chiado. Foi pela estupidez que desapareceu ao olhar pela janela do...comboio para Lisboa. Mais lúcido, agora, concluo. Se tivesse viajado de carro não teria o leitor parado na minha estória.

Jorge Pelicano

2 comentários:

  1. É isso aí amigo!

    O comboio também tem vantagens...

    Pena que quem decide, continue a preferir andar de carro..

    ;-)

    Aquele Abraço,

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  2. Olá Jorge,
    Estive a ver o Pare, Escute e Olhe na Fnac de Coimbra em Dezembro. Infelizmente não consegui partilhar consigo o qto o seu documentário vai de encontro a tudo o que eu penso e sinto sobre os portugueses do interior. Ora abandonados ora achincalhados por quem lhes regula as vidas, seja através de uma escrita demolidora que os trata como objectos textuais e não como sujeitos dentro de um texto, seja pelos políticos e ou ideólogos de ocasião. O seu documentário funciona como as peças de Shakespeare as persona são pessoas inteiras, com as suas pequenas e grandes coisas. Parabéns! Gostaria de frequentar um workshop sobre como fazer um documentário. É uma área que me interessa muito desenvolver em termos educacionais, sou professora. Cumprimentos e bem-haja pela sua sensibilidade e grandeza. Vera Carvalho
    (vera-lucia.carvalho@sapo.pt)

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